Paulo Mendes da Rocha e Josep Montaner: Um diálogo que transformou a Arquitetura

O legado do arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha continua reverberando mundo afora. Reconhecido por sua obra potente, essencialista e voltada para a coletividade, Mendes da Rocha encontrou ecos em vozes críticas internacionais — entre elas, a do arquiteto, teórico e professor catalão Josep Maria Montaner, uma das figuras mais influentes do pensamento arquitetônico contemporâneo.

Em 1996, Montaner foi coautor, com Maria Isabel Villac, da monografia Mendes da Rocha, publicada pela editora Gustavo Gili na Espanha. Foi a primeira grande publicação europeia dedicada ao arquiteto, resultado de um genuíno encantamento com a originalidade de sua obra. Villac relembra que, ao apresentar os projetos de Mendes da Rocha a seus colegas da Universitat Politècnica de Catalunya, a reação foi de surpresa e profunda admiração.

Essa conexão se aprofundaria com o tempo. Em 2006, após a consagração de Mendes da Rocha com o Prêmio Pritzker, Montaner publicou na revista “Arquitectura Viva” um artigo contundente em que destacou a coerência ética e técnica do arquiteto. Nele, descreveu a arquitetura de Mendes da Rocha como estrutural, direta e orientada à criação de espaços democráticos, capazes de fortalecer o tecido social urbano.

No Brasil, esse diálogo entre a prática arquitetônica e a crítica teórica ganha uma nova camada de relevância com a publicação, pela Editora Olhares, de três obras fundamentais de Josep Montaner: A modernidade superadaArquitetura e crítica e Política e arquitetura (este último com a colaboração de Zaida Muxí).

Em A modernidade superada, Montaner traça um panorama da transição entre os paradigmas modernos e os novos caminhos da arquitetura no século XXI. Ele propõe uma crítica à ideia de progresso linear e resgata abordagens plurais, nas quais a obra de Mendes da Rocha — com sua força ética e material — se insere de modo exemplar.

Já Arquitetura e crítica oferece uma leitura profunda sobre o papel do pensamento crítico na formação e na transformação do campo arquitetônico. Em sua análise, Montaner valoriza experiências latino-americanas e destaca o potencial transformador da arquitetura comprometida com questões sociais, culturais e ambientais — premissas que também orientaram o trabalho de Mendes da Rocha.

Por fim, Política e arquitetura, escrito em parceria com a arquiteta Zaida Muxí, articula uma discussão atualíssima sobre o impacto das políticas públicas, dos movimentos sociais, das lutas por equidade e das questões ambientais na produção do espaço urbano. A obra é uma ferramenta potente para pensar como a arquitetura pode contribuir para cidades mais justas — ideal que sempre esteve no horizonte de Paulo Mendes da Rocha.

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